quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Nata

Cobriu de brumas o espaço uma névoa, fumaça que torna amena a paisagem, deitando-se sobre a luz dos postes que se tornam veladas, embaçando as ruas ainda molhadas, seus reflexos tétricos e solitários. Abraça, com invisíveis braços, as inúmeras casas que bebem a véspera por goles de vigília. Silêncio onde repousa a antena indiferente ao nascimento de algo longínquo, tudo se molda nos pratos que logo mais sairão de seus lugares de reserva e espera. A casa úmida de mesas e cadeiras, se despe de tintas que se soltam como fina película sobre as cabeças dos convidados, transformando corredores em corredores, salas em salas, portas em frestas por onde se olha e vê anunciado um lugar que permanece imutável, distante, também sob o domínio desta massa lenta e sem ruídos da névoa. Tudo, ou quase tudo, interrompido pelo odor de algo que concretizará junto ao dia de amanhã uma paisagem distante na escura e brumosa rotina.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Debaixo da Mesa

Reúnem-se os adultos ocupando estrategicamente os espaços das poltronas, observando nos intervalos as crianças que ouvem da tia histórias em torno da árvore de natal. Umas mais afoitas, elegem os embrulhos maiores seus presentes, outras exploram os ornamentos dependurados sobre a árvore, todos sob o olhar da estrela inatingível que figura no topo da complexa árvore das ideias distribuídas, embaladas em papéis natalinos cuidadosamente reservados para o momento de agora. Meninos e meninas maiores se separam pelos quartos, já não se iludem com a roupa sempre limpa de um velho que desce pela chaminé.
A sala, mesa posta, duas senhoras conversam alisando com as mãos o delicado forro.
O aroma que vem do forno invade a casa feito enxame de abelhas a ferroar o olfato, fazendo nascer da substância do ferrão uma imagem que fora incansavelmente propagada nos comerciais televisivos: a família reunida aprovando a ave dourada sobre a mesa, como o astro no topo do pinheiro de plástico. Revela a intimidade suspensa em vapores sublimes, esboço volátil de uma felicidade inventada.
A mãe, que ficara todo o tempo na cozinha junto à empregada que é também da família, a parte que come só num banquinho próximo à pia, - não se mistura além dos resquícios dos temperos impregnados nas intimidades dos dedos, dando às massas a pessoalidade do sabor - se apresenta de avental na sala anunciando ter esquecido um tempero do prato principal.
Silêncio.
Todos a olham como se vissem o próprio Bismarck entregue às trevas do naufrágio: o couraçado revelou-se frágil, o mar é maior que o mundo. Um primo anuncia o resgate: "Não tem problema, ficará bom do mesmo jeito!". Assim a família sobe ao bote compartilhando num espaço menor o receio de mergulhar na saliva grossa do oceano. Estreitos, a casa começa a desvendar suas rachaduras, uma mancha de mofo os observava todo o tempo, o taco, o taco, o taco, o fio solto do sofá, o vidro da mesa de centro com uma mancha vermelha, a luz queimada do pisca-pisca. 
Jantar servido, a ceia, todos escolhem cuidadosos seus lugares observando antes onde podem melhor se servir, alisam com pentes dourados os pelos das feras, um ritual, a mesa, as cadeiras, os pratos, os talheres são todos as costuras finas e ocultas dos mantos que lhes cobrem os corpos, que os fazem dignos de tal cerimônia. Comentários polidos como as taças, ruídos de colheres tropeçando nas porcelanas, o repouso do garfo fincado no arroz esperando que se contem os grãos dos cereais suspensos como estrelas no forro deste céu de vapor: a oração. 
O espaço da casa se rompe e é regido pelo hábito de uma fome que organiza sistematicamente a fatia da carne sobre os outros destroços, como a um presépio. As primeiras mastigadas tem seus ruídos particulares que se estendem noutras mais, uma orquestra intensa envolvida num caldo de silêncio grita seus instrumentos: "Ela esqueceu o tempero! Esqueceu o tempero! Esqueceu!"
O mesmo primo resolve dizer algo sobre o tempero e é recebido por todos com risos que deixam cair sobre a mesa uma delicadeza choca. E, assim, continuam mastigando outros esquecimentos.

Casa

Um peso. A casa continua morta nos móveis, nos guardados. Basta abrir uma porta do armário e fazer despertar os objetos dentro de caixas prontos para uma mudança futura. E quando será a mudança? Ela espera. Talvez abandoná-los ao gosto da chuva e das esquinas de sol obsessivo sobre as ramas que nascem das rachaduras de concreto. Ali deixá-los. Todos. A casa então vazia, completamente morta, agrupa em seus espaços vagos a própria essência, o lugar não lugar, a invalidez de suas prateleiras como a um deficiente - seja o que for a deficiência, talvez um olho que não capta mais o amarelo e tudo por ele é azulado mórbido, diluído. A casa uma letra oca que não encontra no vácuo qualquer suporte que a faça letra, existir, quem sabe uma palavra, (...). O que permanece vivo são as marcas na madeira, rios embalsamados, mares e praias, lagoas duras sob um vento constante. Toda vida ali deixada é a imagem sem querer ser dos tacos mal encerados. Agora leve, qualquer brisa faz agitar de seus móveis, - que não são mais que os furos alinhados nas paredes formando constelações de memórias - eiras.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Um Não Lugar Qualquer

Aqui, talvez. Dizer "talvez" é quase ser dono do espaço. Muito ainda aqui. Quem dirá que o onde é aqui? Dizer "talvez" é colocar um chifre no lugar, esse de boi bravo que a gente olha por detrás da cerca. Porque o que está no lado de lá, o boi, é que determina o que está no lado de cá, quem observa. Dizer "talvez" também é quase dizer o contrário, é fazer voltar a visão para o lugar onde a luz não alcança, aquele ponto de sombra que expõe as margens de todo objeto. E o objeto é dúvida, seja onde ele estiver, aqui ou do lado de lá. Dizer do lado de lá é saber-se num dos lados, adiantar o lado, o lugar onde. Saber-se no espaço é a estação de espera. Uma mulher atravessa a rua, sobe a calçada, finca o corpo num lugar imaginário, próximo a uma árvore, onde espera o ônibus. Ela é quase o destino, desde que seja transportada até lá, desde que chega. Ela marca na espera o "talvez", é a estação.  E aqui? Uma esfera que não se pode ver. Suas marcas, seus relevos são claros e passou a ser. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Imagem

A imagem é o que exatamente é. Não, a imagem não é. Ela é exatamente o que não é. Não é exata. Não é. Negar e ser, negar ser, sim, afirmar a negação de ser. A imagem é a negação. A imagem não nega o que ela quer que seja, não nega o que ela não é ou deixa de ser, não quer. A imagem está em nenhum tempo verbal. A imagem está onde está. Não está. Nunca esteve. Nunca estará. A imagem nunca se nega, nem se afirma. Nunca será nunca. Qualquer coisa que se afirme ou negue sobre a imagem é melhor que não se faça. É melhor que não haja o que é melhor, nenhuma tentativa de negar ou afirmar. Assim, não trazer pontos, escrever. O que há de absurdo nisso tudo, se há algum absurdo ou se isto é isso ou algo que possa ser tudo, é que o ponto sobre a imagem nos lança de tal modo a um abismo em que cada grão do que se vê é um outro abismo particular, talvez como uma espiral. A imagem não está, ela permanece neste estado de lacuna como uma matéria que nos escapa, suspensos, inertes, no abismo dela mesma. a imagem, o espaço, o tempo, o que passou. 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Um poema de Alexander Puchkin

Cansado da fome espiritual
Em meio a um deserto triste meu caminho fiz,
E um anjo de seis asas veio a mim
Num lugar onde havia uma encruzilhada.
Com dedos leves como o sono
Tocou as pupilas de meus olhos
E minhas proféticas pupilas abriu
Como olhos de águia assustada.
Quando seus dedos tocaram meus ouvidos,
Estes se encheram de rugidos e clangores
E ouvi o tremor do céu
E o vôo do anjo da montanha
E animais marinhos nas profundezas
E crescer a videira do vale.
E, então, pressionou-me a boca
E arrancou-me a língua pecadora,
E toda a sua malícia e palavras vãs,
E tomando a língua de uma sábia serpente
Introduziu-a em minha boca gelada
Com sua mão direita encarnada.
Então, com sua espada, abriu meu peito
E arrancou-me o coração fremente,
E no vazio de meu peito colocou
Um pedaço de carvão em chamas.
Fiquei como um cadáver, deitado no deserto,
E ouvi a voz de Deus clamar:
“Levanta, profeta, e vê e ouve,
Sê portador da minha vontade -
Atravessa terras e mares
E incendeia o coração dos homens com o verbo.”

Alexander Puchkin
(1826)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

ir se ou vir se