Aqui, talvez. Dizer "talvez" é quase ser dono do espaço. Muito ainda aqui. Quem dirá que o onde é aqui? Dizer "talvez" é colocar um chifre no lugar, esse de boi bravo que a gente olha por detrás da cerca. Porque o que está no lado de lá, o boi, é que determina o que está no lado de cá, quem observa. Dizer "talvez" também é quase dizer o contrário, é fazer voltar a visão para o lugar onde a luz não alcança, aquele ponto de sombra que expõe as margens de todo objeto. E o objeto é dúvida, seja onde ele estiver, aqui ou do lado de lá. Dizer do lado de lá é saber-se num dos lados, adiantar o lado, o lugar onde. Saber-se no espaço é a estação de espera. Uma mulher atravessa a rua, sobe a calçada, finca o corpo num lugar imaginário, próximo a uma árvore, onde espera o ônibus. Ela é quase o destino, desde que seja transportada até lá, desde que chega. Ela marca na espera o "talvez", é a estação. E aqui? Uma esfera que não se pode ver. Suas marcas, seus relevos são claros e passou a ser.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Imagem
A imagem é o que exatamente é. Não, a imagem não é. Ela é exatamente o que não é. Não é exata. Não é. Negar e ser, negar ser, sim, afirmar a negação de ser. A imagem é a negação. A imagem não nega o que ela quer que seja, não nega o que ela não é ou deixa de ser, não quer. A imagem está em nenhum tempo verbal. A imagem está onde está. Não está. Nunca esteve. Nunca estará. A imagem nunca se nega, nem se afirma. Nunca será nunca. Qualquer coisa que se afirme ou negue sobre a imagem é melhor que não se faça. É melhor que não haja o que é melhor, nenhuma tentativa de negar ou afirmar. Assim, não trazer pontos, escrever. O que há de absurdo nisso tudo, se há algum absurdo ou se isto é isso ou algo que possa ser tudo, é que o ponto sobre a imagem nos lança de tal modo a um abismo em que cada grão do que se vê é um outro abismo particular, talvez como uma espiral. A imagem não está, ela permanece neste estado de lacuna como uma matéria que nos escapa, suspensos, inertes, no abismo dela mesma. a imagem, o espaço, o tempo, o que passou.
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