quinta-feira, 18 de julho de 2013

Vó Zenir



A “mamma” de sempre, generosa e forte. Já com suas perdas que a deixam olhando um lugar que janela adentro, passeando os dedos nos desenhos dos forros de mesa ou nas marcas da pedra do balcão onde as vasilhas limpas secam, numa caminhada difícil com pernas de mais de 80. Ainda a preocupação, os filhos não cresceram, as filhas se tornaram parte de seu vestido gasto de rosas quase apagadas. O arroz dela, que meu pai diz ser o melhor, unido, como todos devem ser. A risada, ainda. A palavra forte, ainda. O sabão feito em casa, ainda. As couves da horta, junto aos pepinos, cheiros verdes. A farinha misturada ao óleo da sobra para alimentar as galinhas, ainda. E não é tarde. Mesmo que a rua já é quase um abismo sem ponte, ainda se ocupa de seu espaço cheio de veias doando seu sangue aqui, nas casas de inúmeros filhos. Deseja uma conversa com o padre, pra dizer de um tormento de um fio rompido e que se escutou na particularidade do rompimento um grito dentro de uma cabaça. A memória da casa na fazenda, dos muitos filhos, do casamento, tudo se espelhando roxo e branco, depois verde, amarelando num maracujá que traz às mãos. Um olhar surdo pro mundo, quase canta: “que fruta bonita!” E nossos olhos são as belezas do maracujá. O mundo despenca oco no chão, são os braços fortes de quem viveu mais que a gente.



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