A “mamma”
de sempre, generosa e forte. Já com suas perdas que a deixam olhando um lugar
que janela adentro, passeando os dedos nos desenhos dos forros de mesa ou nas
marcas da pedra do balcão onde as vasilhas limpas secam, numa caminhada difícil
com pernas de mais de 80. Ainda a preocupação, os filhos não cresceram, as
filhas se tornaram parte de seu vestido gasto de rosas quase apagadas. O arroz
dela, que meu pai diz ser o melhor, unido, como todos devem ser. A risada,
ainda. A palavra forte, ainda. O sabão feito em casa, ainda. As couves da
horta, junto aos pepinos, cheiros verdes. A farinha misturada ao óleo da sobra
para alimentar as galinhas, ainda. E não é tarde. Mesmo que a rua já é quase um
abismo sem ponte, ainda se ocupa de seu espaço cheio de veias doando seu sangue
aqui, nas casas de inúmeros filhos. Deseja uma conversa com o padre, pra dizer
de um tormento de um fio rompido e que se escutou na particularidade do
rompimento um grito dentro de uma cabaça. A memória da casa na fazenda, dos muitos
filhos, do casamento, tudo se espelhando roxo e branco, depois verde, amarelando
num maracujá que traz às mãos. Um olhar surdo pro mundo, quase canta: “que
fruta bonita!” E nossos olhos são as belezas do maracujá. O mundo despenca oco
no chão, são os braços fortes de quem viveu mais que a gente.
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