sexta-feira, 29 de março de 2013
Uma criança chora aqui no prédio. Lá fora toca Alcione e as luzes das casas me soltam pra dentro de nada. Um ruído de carro atravessa esses sons pendurados como delicadas conchas em cortinas na porta. Pra quê serve escrever? Jogar essas faíscas de pequenas pontas agrupadas no infinito branco onde nele se perde e se torna rocha desfigurada como areias numa praia vazia, pra quê serve? Obedientes, como a um frade, faz as mãos sua oração na tentativa de cerzir redes abertas nas caldas de uma água viva. Frios fios acumulam no centro a expectativa das ondas. Escrever não é como cortas as unhas, nem pentear os cabelos. É aparar as raízes que saem dos poros quando dentro não há mais espaço, tal como a criança que chora. O choro é o corpo esgoelado de lágrimas, torcido, frágil. Tal como a Alcione esgoelando em caixas e abrindo o apetite dos copos, pedaços vazios contendo o nada, preenchidos pela vontade que ninguém grita e precisa ser comportada nessa grade inteiriça que acomoda os líquidos. Tal como as luzes das casas que enfrentam a noite e ameaçam o silêncio que alarga na forma de palavras.
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