terça-feira, 5 de março de 2019

Conversas


É possível sentir da terra os inúmeros ruídos, seus trovões internos que anunciam tempestades, o som das pontas ínfimas das raízes de uma planta que abrem espaços no maciço solo, se movimentando como tentáculos e produzindo deste movimento ranhuras sonoras que percorrem os vãos que são as casas ocupadas por corpos ancestrais responsáveis pela vida e pela morte. 

Um homem em solidão cuida da horta, mesmo que o vento esteja forte e a chuva é vista chegando, nada disso o atrapalha. É essa a imagem que vejo agora da janela da cozinha: um homem, ao longe, capinando canteiros de uma horta. Não há câmeras, ele não é um ator, não sabe que eu o vejo, é apenas seu corpo curvado com os movimentos dos braços levando e trazendo a enxada e o cansaço físico aparentemente menor do que a obrigação. Eu o conheço, é um sujeito de pouca fala, tímido. Ali, não se difere da vegetação, é como os movimentos das folhas das árvores, misturado à paisagem, ao vento, ao cheiro de terra molhada. Certamente ele tem os canais da escuta abertos neste momento. Se por algum instante ele se esvaziar, terá os seus vãos conectados com os da terra e facilitará o caminho das vozes desses corpos ancestrais que lhes trarão as sensações de uma escuta quase imperceptível.
Nada escutamos quando a escuta está bloqueada por outras tantas falas que existem no salão das coisas mundanas. O amor é também a escuta, sem julgamentos, sem resquícios do moral. Escutar a terra é tatear no escuro, não usar os olhos e não ter ouvidos. É escutar sendo surdo, ver sendo cego. A cegueira absoluta, o breu, atiça os sentidos da audição e todo som ganha forma e é possível ser visto em camadas como um corpo tridimensional. Assim também a surdez absoluta atiça os sentidos da visão, criando em todo o corpo canais de escuta que transformam toda vibração em fragmentos de outro corpo possível de ser visto. A cegueira e a surdez, ambos anulados, atiçam o olfato e o cheiro passa a representar a importante essência que nos conecta aos outros seres, sem que estes precisem ser vistos por nós. O tato existirá num lugar onde a sensação é um corpo que nos esbarra e é possível ser sentido. Tateamos este corpo, sentimos seus cheiros, escutamos suas vozes sem saber, pois o saber não é mais útil neste lugar. Ele é usado por nós quando nos reencontramos com as palavras. A razão é inútil, assim como todas as ciências. Adaptamo-nos a ver (ver é diferente de enxergar) com o recurso da razão e ela nos cega. Todo objeto para ser visto é preciso que haja luz (razão) e não o conseguimos ver se ele estiver iluminado por todos os seus pontos (razão excessiva). A razão excessiva nos conecta ao equívoco. Sendo assim, o que nos possibilita enxergar é a combinação de luz e sombra. Sem a sombra, o objeto todo iluminado é apenas uma imagem borrada de luz onde não conseguimos ver os seus detalhes, as suas particularidades. A luz ensina aos olhos que não precisamos apenas dela para enxergar, que muitas vezes são as sombras que guardam a essência do que é visto. A luz pode ser representada pela vida praticada enquanto estamos acordados. As sombras são os sonhos, os intervalos. E estes sonhos são fontes de uma transmissão que não encontramos frequência enquanto despertados demais, cheios de razão. Sonhar acordado, desligar a razão, acessar as sombras, tatear sem pedir por luz, viver a escuridão, a cegueira, entrar nos caminhos vazios dos canais da escuta é como olhar para o céu até que ele esteja esgotado de ser céu. Olhar e olhar muitas vezes mais até extinguir do céu os nossos conceitos e libertá-lo. Quando retornamos às palavras, somos também o que o mundo das sombras tem a dizer através de nós. Somos a fala da terra, do solo, parte daquilo que escutamos. Entendemos que o que falamos é em nós o mundo e o que ele nos ensina a partir das suas infinitas camadas de escuta.
Acredito ter sido o sol a nos ensinar as palavras. Quando ele ilumina a parte do mundo onde estamos, escutamos com os olhos o que tem a nos dizer as coisas através das cores. Para apontar, nomear, ter como referência aquilo que se vê, foi preciso primeiro grunhir, soltar qualquer ruído que pudesse vestir as coisas de palavras. Antes, a luz havia moldado os olhos, assim como o som moldou os ouvidos, o cheiro as narinas, o ar a voz. Os sentidos, todos eles, são mecanismos despertados para o universo. Existe o som sem a escuta, as cores sem os olhos e a voz sem o ar. O que sentimos basicamente nos serve de instrumentos para sobrevivermos, mas também é uma forma do universo sentir suas vibrações a partir de nós e das tantas outras criaturas existentes, como se fôssemos canais, antenas ou formas de sentir e viver. A sobrevivência pode ser tratada de forma mecânica: dormir, acordar, comer, trabalhar, transar, dormir. Uma vida assim é pouco erótica, transgredir essas ordens é se relacionar com o mundo eroticamente. Se sujar do mundo, ter as nossas partes expostas, nuas, nossos corpos misturados ao pó, à lama, às pedras, às vegetações, enfim, nos dá em troca a memória acesa que ilumina as nossas noites escuras. Essa relação erótica não é abusiva, não rompe com as linhas da liberdade, não é agressiva. Ela preenche as vagas dos intervalos que existem em cada gesto, em cada palavra com as memórias do mundo. As partes vagas dos intervalos são canais por onde a escuta se manifesta -também eroticamente -, são as sombras. Em cada célula da voz daquele que se sujou é possível escutar as vozes dos intervalos, encharcadas do mundo e do universo, onde o corpo se completa do líquido infinito que caminha feito ondas a nos partir inteiros e nos revelar uma casca aberta expondo tudo que existe. As infinitas memórias voam como o ar, atravessa-nos com suas pontas de vida e morte, passam por entre os nossos vãos onde despertam as nossas escutas.
Visitei outro dia um benzedeiro, o Sr. Cristiano, e em nossas conversas ele me disse que para benzer é preciso ter pureza (ele usou uma palavra mais original, que não me recordo agora). Por essa razão, consegue ver e escutar o que traz cada pessoa, sem que ela precise dizer qualquer palavra. Assim, ele consegue benzer e curar. Hoje tem 81 anos, começou a benzer aos 16. Disse que não sabe ler e escrever, que as orações apareceram em sua cabeça. Começou a trabalhar aos 7 anos na lavoura e desde sempre trabalhou com a terra, hoje é jardineiro. Seus canais de escuta estão dilatados, consegue curar uma pessoa mesmo que ela esteja muito longe. Consegue expulsar cobras e escorpiões de um terreno, com suas orações. De que modo? Certamente conversa com os espíritos destes animais, obrigando-os a deixar o local. Há aí muito mistério que ele, na sua simplicidade, tem guardado.
O homem que capinava a horta, que eu via da janela da cozinha, já deve estar dormindo. O que sonha uma pessoa com tamanha humildade? Seu corpo cansado sobre a cama depois de um dia em que várias tarefas impostas a ele foram cumpridas e outras tantas ainda por cumprir devem martelar em sua consciência o dever que nunca se esvazia. Mesmo em seu rosto descansado se vê a preocupação em ter que preencher os pratos que sempre estarão presentes na mesa de jantar e jamais se cansam de esvaziar.
A memória é uma bagagem suficiente. O esquecimento, uma dádiva.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Enxurrada

A estrada é de terra, essa. 
Por cima dela, uma montanha. 

A montanha é de pedra 
e de terra e de raízes 
e pequenas árvores. 

O mês é janeiro 
e a chuva veio 
nos ventos 
dos meses passados. 

A chuva caiu sobre 
a montanha 
e sobre a casa 
e sobre a grama 
e o antigo galinheiro. 

A chuva não é de pedra, 
mas o telhado soou 
a cada gota o seu tamborim 
de cerâmica 
como se fossem as gotas 
dedos de pedra 
de um percussionista. 

O córrego foi desenhado pela água 
e se encheu de chuva, 
passou por cima do canto do galo, 
apagou da lama as pegadas da criação, 
varreu o terreiro, 
abafou o chiado da panela no fogão, 
gotejou na sala, 
no quarto, 
em cima da cama, 
abafou também as vozes 
de dentro da casa, 
o córrego transbordou 
junto com a fé, 
um terço corre feito enxurrada 
nas mãos da senhora 
que sopra sua oração. 

A chuva e a oração. 

A janela nada vê 
além da cortina branca 
encharcada. 

Nem pio, o mundo é uma pia. 

Escurece, como todos os dias, 
quando chove antes da noite. 
A noite, atrasada, apaga 
o mundo borrado 
e no sem vê só se escuta 
a sombra do copo de água benta 
que agita-se na parede 
iluminada pela vela. 

No prato, a colher persegue 
o grão cozido da panela muda 
e o metal nos lábios 
é mais frio que a chuva, 
ainda que tenha roubado 
da comida o calor fugaz. 
A brasa. 
O tição são os olhos do gato 
adormecendo. 
Abrasa a esperança 
que aquece a cama 
e daquilo que é silêncio 
se ama como correnteza, 
enxurrada, 
pra dentro dos lençóis. 

Amanhece 
e a estrada de terra 
agora tem suas veias expostas, 
por onde passou 
o que se derramou 

e foi embora.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

De mais cedo

Ontem, pela manhã, o arbusto de folhas roxas
havia sido em parte destroçado
Por um animal grande que ronda abaixo das estrelas
com sua pata sobre a terra pisoteada
pelo sol.

Hoje, pela manhã, o compadre soube da poda
Do que se estragou do arbusto de folhas roxas.

Veio pedir os galhos destroçados para deles fazer mudas.
Estavam sobre as folhas das piteiras que apodrecem
Sobre a terra de mandiocas.

Com tesoura, calmamente, separou pequenos talos
Mãos que conhecem a geografia de uma enxada
Enquanto no fogo a água acusava pequenas bolhas
Tímidas, aquecidas pelo desejo do café amargo.

Sentamos os dois, trocamos no hálito o hábito da prosa
E do café pela manhã, as demandas dos próximos dias
Quando preparamos a surpresa sabida para surpreender-nos
Durante o tempo em que novas velhas bolhas anunciam
Outras cadeiras puxadas, próximas à mesa, acompanhadas
Por pares de pernas cruzadas com café. 

Logo mais, a comadre veio depois que acabou a missa
- Afinal, é domingo de manhã –
Trazer a lona pesada para proteger o tear.
Disse ter pressa, infinitos braços, pois Chico tem as pernas doentes
E precisa chegar para sentar ao sofá e respirar.
Respirar o dia arrastando passado. 

Outra comadre, mais tarde, veio com sua companheira
Abraços e sorrisos, entraram, ergueram uma casa, 
queijo e goiabada, o café de mais cedo
Ovos sobre a mesa, levaram cinco deles. 

O vento, visita constante, leva-nos aos outros
para dentro das casas sem ter os pés limpos no tapete da entrada.

Outro compadre, ladrou o cão, apoiou-se na porteira.
Aceno, que entre com seu baú.
Mãos sujas do barulho que mais cedo
Soava de sua casa, sinfonia do domingo de quem não para.
Mãos apertadas, entramos os dois.
Café de mais cedo e um pedido:
Broca que fura alumínio.
Broca universal, disse-me um vendedor.
Tanto é a palavra universal, o compadre olhou impondo
Dúvida. 

O dia ilumina intenso o socado chão,
O ninho do guacho respeita as vontades do vento
E logo sua silhueta apenas no findar rubro duro
Que se encerra detrás e diante de nós.
Amanhã, serei eu a visita-los.
Desde suas presenças, respeitamos
As vontades dos ventos e trocamos
Pequenas coisas que não se vê
E que irão dormir em nossas camas
E que irão acordar no que se encerra.
No horizonte, o desejo desperta

Da esperança, a felicidade.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Duas Pedras

Com as mãos nos olhos, agarrou as pedras
Duas pedras frias ausentes que se destinam
A serem miradas na paisagem.
Roubá-las, as duas, para que se despenquem
Do rosto, abrindo caminhos por um corpo montanha,
Caindo decisivas às margens de um rio.
Desde ali, uma lua meia lua as mira
Percorrendo o leito das águas azuladas entre pequenos seixos.
Tantos olhos compridos como serpentes vão
Até o improvável, um largo que se acosta nas margens do infinito.
Tantos olhos duros que tem as cinzas do que é tempo, o escavado.

Sobre a sede de uma rês, fendas abertas caminham.
Duas pedras negras soltas no corpo montanha
Preenchem a vaga de uma muralha remota
Suspensa e fluida erguida por ninguém.

Este é seu povo, seu quintal, sua casa, sua cama barco e vela
E a curva que se apresenta contém nas extremidades duas mãos.
Seus olhos arrebatados abrem trincas sobre as pedras
Por onde sinaliza o véu branco infindável do leite destinado
a saciar a fome do mundo e a tecer seus restos nas bordas do infinito. 

domingo, 14 de junho de 2015

Casa II

Pátria Livre. Um livro sobre o impresso que cita Conversas – 1948. Dois objetos sobre a mesma mesa das águas e dos sonhos, uma escuridão.

            Não é tão simples quanto a luz que se acende em um cômodo do apartamento que vejo mais adiante. Logo apaga. É que as letras também estão se apagando, o “n” por exemplo. Logo agora que ele é um recipiente virado de boca para baixo ou um tamborete. As duas pernas existem escondidas por trás das duas primeiras, conversam sobre mulheres sem homens e as histórias dos gestos. Nos sonhos existem selos como os das cartas, como os gestos, só que sob o gesso que imobiliza o membro para que o osso seja colado. Engessa nos sonhos aquele colorido que se nota quando há óleo em água mais escura. A partir daí é fácil comprar de um velho dois olhos de boi.

            Minha filha me trouxe semana passada um chaveiro em forma de volante de carro dentro de um embrulho amassado que ela abria a todo instante para conferir se estava o presente intacto. Imediatamente o chaveiro está zelando por minhas chaves. Lembro-me de ter achado os braços dela mais longos e tímidos. As letras também estão engessadas nesta carta que te escrevo. Os braços da minha filha, agora que me dei conta, sempre foram longos que te alcançam. Por que você quis ir embora aquele dia? A casa era sempre um fio suportando a pena e o chumbo, amontoados, disfarçados junto aos seus segredos com agulhas e linhas na caixa metálica de biscoitos – não sei para onde foram esses objetos.  Você era aquela casa, o corpo onde a gente brincava, sua palavra era uma cadeira, também a mesa, habitando aos poucos nos cômodos que descobríamos em nós. Meus irmãos ficaram na cozinha conversando baixo ou pode ser que nem falavam e fitavam surdos o dentro de um copo ou prato, dividiam entre eles naquele cômodo que hoje é uma nódoa o fato de serem os filhos mais velhos enquanto eu corria para o quarto buscando entender hoje aquele armário velho de onde você tirava suas roupas para... Você espremia tudo, janela, tapete, naquela mala. Selo. Eu queria perguntar se você era feliz, coisa que te perguntei noutra vez, mas a minha idade era braços curtos demais.


            Fiquei aqui um tempo que esta carta não conta, deveria. Um tempo que escrever não. Você se sentou depois na soleira da porta e eu lhe pedi pra que não fosse embora. Seu choro me fez lembrar hoje o motivo que chamo de “i” tudo quanto é rio e água. Lembra agora daquela água retombando, córrego, não é um “i” que se ouve? Agudo, muitos “is”, sutis no comprimento dos sonhos, como pele. Escrevo sem resposta e nenhuma carta selada quando minha filha me liga. É que naquela noite você me deu esse abraço dizendo que ficaria para sempre nas nossas casas. 


-*_Texto para exposição que aconteceu no galpão da Benfeitoria, em Belo Horizonte, 2015, a convite de Shima, o original exposto acompanha outra parte escrita por Ana Luiza Lima. Título: Casa

terça-feira, 5 de maio de 2015

Os mil olhos do bambuzal

          A madeira rachada era só a madeira rachada, a lasca exposta ao fogo. E da chaminé a fumaça que ganhava os pomares revelando espadas luminosas do feixe filtrado do sol, fincando a terra, parindo e morrendo tudo no mundo.
          O relógio de prata no punho moreno deixado sobre a mesa, uma das mãos segura a faca enquanto a outra leva para dentro da cratera o esforço duro das máquinas que debulham o milho, destroçam a cana.
          Dois ruídos apenas saem do meio do crepitado, das lenhas ainda acesas. Entre um e outro, um vão.
          Um papel queimava o que ela havia escrito sem que o pai pudesse ver: 

          "Deus é a bondade?" (Ali já corroía um buraco rodeado de fogo para todo o corpo do papel). "...parece ser um couro estendido, repuxado, de um boi que morreu à facadas, onde cada rasgo é a brecha por onde se vê o do outro lado." 

          O papel ia, o fogo lia e apagava, lambendo em labaredas sem dar nota. Ardido na garganta igual à água que se pinga em chapa de ferro escaldado, o medo é na gente. Ele, a mãe assoviando no quintal. O medo é em tudo. 
          Voltou ao corredor e retirou o lenço que tapava o santo, antes que a mãe visse e resmungasse ao pai a sua estranheza, essa. O pai fingia não escutar, mas a tulha guarda do vento o miolo do feno. 

          "Essa é só uma brecha do couro". Pensou ela e voltou para o frio da sua cama, sua janela que dava para o terreiro. O mundo e seus pequenos. Começou a desenhar o barranco que se via abaixo do bambuzal e que era a margem mais alta do córrego. Antes, anotou no papel: "Barranco é o vão de um nas costas de outro, Deus e o diabo se encarando na lateral dos olhos, o muito de terra que some na lambida fina de um riacho. É por neste mundo existir barranco que existe igreja. Cristo, nosso senhor, pra sempre neles de mãos e pés, cruz é uma chapada aberta erguida do solavanco do chão". Olhou para a ferida em seu braço: "Também a ferida, o rasgo na pele que leva ao fundo, cratera, que não pode ficar aberta expondo a intimidade tão assediada, é barranco. Logo a ferida se torna pele seca, casca morta, tal qual a um vulcão inativo que mantém violada a restituição da lava, o sangue que corre por essas pontes, como onda, sempre buscando o coração. O corpo é demais rios, outras pessoas que nos habitam, chuvas que esbarram em cordilheiras para despencar em outro país. O corpo tem as suas cordilheiras, toda célula é cordilheira em si, de si, barranco."


          Largou o papel sobre o colo por baixo da mesa e se lembrou do dia que escutara o tio contar para a sua mãe um sonho, eles dois sentados à sombra que a casa fazia no terreiro, ele preparava o pito, ela catava o feijão: "Sonhei um homem que viu a primeira vez um barranco, parou diante dele, todos homens e mulheres atrás, e ali ficou e tudo que a gente vive hoje é pensamento desse homem buscando o desvio ou ponte se erguer, toda guerra, tudo é um instante de palha em fogo no pensamento desse, como quando meu pai jogava jogo de tabuleiro com meu avô. O pensamento da gente é ainda o homem olhando o lá na frente sem poder atravessar, imaginando. Fico pensando em quando esse homem for dar no outro lado, o que é da gente depois?"

          Olhou novamente a janela e o que ela via por cima desse barranco era um bambuzal: "esse parece que me olha mil vezes, só o terreiro é que não dá satisfação. As galinhas lá." Pensou.

          O pai passou pelo corredor, indo ao seu quarto, ela que desenhava o barranco dobrou o papel e o escondeu dentro da saia. Passado o pai novamente, retornando, ela por fim rabiscou o último espaço: "Desenho e escrita é barranco. Casco de navio é barranco que flutua".
          O pai no terreiro foi para ela o maior barranco onde o lá na frente ficou entre um vão esperando. Ele a chamou pela primeira vez depois de anos lhe espiando em silêncio. Em barranco bicho muda a couraça, o que rasteja flerta com o desvio, é o no-não-pode ordenado, soerguendo a encosta, delineando o precipício. O pai sentou-se ao seu lado enquanto ela esperava e olhou mais olhou para o lado do bambuzal e disse que nele existiam mil olhos.

  

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Fio um somar

Também, como nas tuas, 
nas minhas mãos os fios
e é só um somar 
envolto em si, emaranhado complexo.
os todos a ponta final
fazer falamos falo o nada
como frase ao revés
no entalhe derradeiro que sobra 

segue, cria a vontade figura da volta.
volume que quer sobrevir
a si mesmo
assim feitura, embondo, 

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