terça-feira, 15 de outubro de 2013

Um poema de Alexander Puchkin

Cansado da fome espiritual
Em meio a um deserto triste meu caminho fiz,
E um anjo de seis asas veio a mim
Num lugar onde havia uma encruzilhada.
Com dedos leves como o sono
Tocou as pupilas de meus olhos
E minhas proféticas pupilas abriu
Como olhos de águia assustada.
Quando seus dedos tocaram meus ouvidos,
Estes se encheram de rugidos e clangores
E ouvi o tremor do céu
E o vôo do anjo da montanha
E animais marinhos nas profundezas
E crescer a videira do vale.
E, então, pressionou-me a boca
E arrancou-me a língua pecadora,
E toda a sua malícia e palavras vãs,
E tomando a língua de uma sábia serpente
Introduziu-a em minha boca gelada
Com sua mão direita encarnada.
Então, com sua espada, abriu meu peito
E arrancou-me o coração fremente,
E no vazio de meu peito colocou
Um pedaço de carvão em chamas.
Fiquei como um cadáver, deitado no deserto,
E ouvi a voz de Deus clamar:
“Levanta, profeta, e vê e ouve,
Sê portador da minha vontade -
Atravessa terras e mares
E incendeia o coração dos homens com o verbo.”

Alexander Puchkin
(1826)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

ir se ou vir se

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O estranho estranho

Há de haver brechas para que a vida se articule em alguma outra coisa, de alguma outra forma. Se não tudo poderia se passar em dor de garganta ou vizinhas por trás da janela. Para mim existe o estranho estranho.  E não é uma pessoa, nem um acontecimento, nem um objeto, nem uma sensação. É tudo isso misturado, junto, praticamente uma entidade sem rosto nem nome. Seria o vento? Digamos que não sei definir mas que ele existe, existe.
Acho que o estranho estranho veio dos tempos primórdios e brigou com outras entidades sem rosto e sem nome para estar hoje em dia aqui entre nós. Com certeza tinham outras entidades  que acompanham outros povos, nossos antepassados e que nem fazemos idéia do que elas eram capazes pois hoje elas não mais pairam por ai. Então não sabemos daquilo que não experienciamos.  Alguns acham que isso é ciência e está associado às teorias Darwinistas, outros sentem a espiritualidade,  tem aqueles que apenas se ligam à internet, sem juízo de valores,  podemos ser os três ao mesmo tempo. Não importa, que ele teve embate com outros seres para estar entre nós, ele teve, passou pela era glacial e as grandes navegações e cá se acomoda nos dias de domingo enquanto famílias assistem televisão.
Quase sem querer, quem nunca pegou um cigarro depois da bebida, de não mais saber o que fazer com as mãos num momento de espera ou porque todos estavam pegando e sei lá. Ou sabe num velório, você olha ao redor, as pessoas choram, não há muito o que ser dito, os olhares se tornam distantes em vários momentos. Simplesmente é nessa hora que está o estranho estranho. Ele está entre os objetos parados e sem função que se juntam na garagem das pessoas de um bairro da zona leste ou no meio de uma música de dez minutos, nos exatos cinco, onde você encontra-se osmótico. Talvez numa garfada de arroz e feijão que você pensa por que arroz e feijão é arroz e feijão e não batata com peixe. Quando um físico descobre a fórmula que queria descobrir a vida inteira e depois olha para todos os papéis, todo o quarto.

Se fosse para eu descrever o estranho estranho em um roupa seria uma capa preta de cavaleiro.  Se fosse para descrevê-lo numa acentuação seria reticências.  Uma palavra? Deixe-me ver, ornitolaringologista ou o nome de um autor do leste europeu,  não pelo significado mas porque acho que deveria ser um palavra complexa. Este momento de não reconhecer-se, de parada, em milésimos de segundos ou alguns anos. E lá fica o estranho estranho em gerações, acompanhando os pensamentos sobre se as pessoas são pessoas ou extraterrestres. Marco Polo vendo um esquimó e um esquimó vendo Marco Polo e ambos pensando: mas que porra é essa? Enfim, as coisas assim em brecha de poderem ser o que não eram antes.

Por Ana Landia

-das belezas de ler-

domingo, 15 de setembro de 2013

Ítaca

Se partires um dia rumo à Ítaca 
Faz votos de que o caminho seja longo 
repleto de aventuras, repleto de saber. 
Nem lestrigões, nem ciclopes, 
nem o colérico Posidon te intimidem! 
Eles no teu caminho jamais encontrarás 
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes 
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti. 
Faz votos de que o caminho seja longo. 
Numerosas serão as manhãs de verão 
Nas quais com que prazer, com que alegria 
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto 
Para correr as lojas dos fenícios 
e belas mercancias adquirir. 
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos 
E perfumes sensuais de toda espécie 
Quanto houver de aromas deleitosos. 
A muitas cidades do Egito peregrinas 
Para aprender, para aprender dos doutos. 
Tem todo o tempo ítaca na mente. 
Estás predestinado a ali chegar. 
Mas, não apresses a viagem nunca. 
Melhor muitos anos levares de jornada 
E fundeares na ilha velho enfim. 
Rico de quanto ganhaste no caminho 
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse. 
Uma bela viagem deu-te Ítaca. 
Sem ela não te ponhas a caminho. 
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te. 
Ítaca não te iludiu 
Se a achas pobre. 
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência. 
E, agora, sabes o que significam Ítacas. 



Constantino Kabvafis (1863-1933) 
in: O Quarteto de Alexandria - trad. José Paulo Paz.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

E se a pétala perder a flor?

O que te falam os monstros
ou os lobos dos quais me diz?
Para aquieta-los em teus mistérios
Há que servir-se de penas
nesta noite fria que tal
vento te descobre as veias.
Há que todos os dias
encher a vasilha de úmidas pétalas
que saem do gozo de uma fricção ruidosa.
Há que mover com óleos a fissura 
de tuas engrenagens, para que elas
não se tornem ásperas como cantam
certas aves.
Há que deixar palavras se soltarem
como os meninos em colado cerol
arrebenta o espaço que despenca
cromático sobre os fios.
Há que se perder na esquina
onde tua boca acende o poste.
E tais monstros, vampiros e lobos
são cascas ou caroços das frutas
roídas de tuas palavras.
Há poucas coisas mais belas
que o caroço.
Ele que não te serve,
descarta sobre a terra 

num campo de inúmeras feras
que te vestem a alma da fome

que tuas palavras tem.
Quando se sabe que não há o que dizer
para aliviar o uivo daquilo que é
a perna manca de teus passos,
palavras de esperanças
são sintéticas.
O que se come é a carne
marcada de patas
de um quadrúpede que te 

segue.
Como passear com cães
estupidamente educados.


domingo, 1 de setembro de 2013

Ou fato

Quase dezoito. E nem era pela idade, era tarde. Sabe aquele cheiro? Das coisas vividas que descem junto ao dia no longe? Era pra lá mesmo. Numa lonjura. E chegavam pessoas, umas de chinelos e mãos sujas, outras, mais tarde, de botas e casacos. O fogão aceso crepitava outro cheiro de pele, a fumaça que se sentia no banho aquecido pela serpentina, aquela parede escura onde andavam lagartixas atrás dos insetos menores. Já não se via mais rastro do dia, como narrar? Bom, era assim, anoitece, anoitecia. Cedo, bem cedo, ainda escuro, levantavam os filhos mais velhos pra tratar do gado e tirar o leite, da cama se ouvia o tratamento e levantava aquele cheiro de esterco e curral. Novamente o cheiro, esse de um biscoito doce junto ao café, acordava a gente pra se sentar à mesa dos trabalhos matutinos sendo realizados aos poucos. Depois era correr com o carro de boi até a plantação pra outros acertos. Sol a pino, enxada fazia aço na terra como um violoncelo. Almoço, aquele prato fundo e o copo de limonada com limão capeta. De tarde outros acertos e depois a pausa pra brincadeira, o futebol no gramado que ficava bem em frente a casa, a pescaria, o outro que fazia arapuca pra pegar passarinhos. Pegava e soltava, o bom era ver dar certo, sentir o coração do bicho apressado nas mãos pra saber mesmo que tudo ali passava mais lento, como se pegasse o tempo e dissesse que não, depois podia ele voar pra outras bandas, assentando suas penas em galhos de outras terras, em rincões de outras raças. Ver voar era pausar e ser o de sempre a repetir como o martelado canto da coruja pela noite. Já tanta coisa. Ali mesmo à beira do fogão, a senhora sabia. Perdeu o marido, os pais, e agora se diverte com os filhos falando em casamento e brincando de bola no gramado. Na lonjura leva o pássaro nas suas asas o peso dos dias e faz a curva. Nessa hora é que apareciam gente pra tomar a cachaça, falavam da plantação, da chuva que não veio e do poço que não achou gota d'água no fundão. A pele de porco servida e o baralho que ia até mais tarde, no meio de prosa, de cheiros, histórias. A mesa. A janela pequena. Os quartos. O porão. E lá fora só se vê barulho em camadas e nada além. Dá hora de dormir, abrir e fechar os olhos é o mesmo negrume. Martela a coruja e todo corpo, são ponteiros do tempo sussurrando do amanhã, do amanhã, do amanhã.

domingo, 25 de agosto de 2013

Grão

Voltei a cavar os quintais, dessa vez noutro interior, em busca de memórias. O primeiro, no sábado, fui à casa de Dona Maria do Gercy. Lá chegando, Soraya que mora agora sozinha na casa depois que sua mãe, Maria, faleceu, estava no quintal conversando com o Lobão, homem que faz os serviços da casa, capina, cuida do jardim e compra cigarro na venda pra ela que está com os joelhos machucados por causa de uma queda. Levei comigo a ração pro gato, pães e biscoitos que sua irmã, Suzete, me pediu que levasse sabendo que eu ia pra lá. Chamei e fui falar com ela na cozinha onde entreguei a encomenda. Sabendo do projeto e autorizada a escavação, me disse que abrira recente o cofre de seu pai que estava fechado há 36 anos. Lá funcionava há 100 anos uma "pharmácia" e um banco, bem antes da cidade se conhecer como cidade. No cofre foi encontrado latas antigas com vários frascos de drogas para manipulação, do tipo ópio, cocaína, morfina, e também uma lata com folhas de coca assim como cartas, notas promissórias e muitas fotos antigas da família. Pude ver tudo e registrar em fotos. Há uma foto que me impressionou: no primeiro plano estava Meire, linda, jovem; logo atrás, numa canoa tomada por ramas dentro de uma lagoa, Dona Maria do Gercy ainda jovem sorrindo para o fotógrafo, o momento era de descontração; ao fundo, na ponta da canoa, Domingos muito elegante segurando um revólver calibre 38 apontando para algo fora da cena, este que viria a ser o marido de Meire; e, ao centro e ao lado de Maria, Mita fitando algo nas mãos, cabisbaixa com um arco segurando os cabelos cheios, tristonha. Naquela foto, só saudades que um canto trás, Domingos, seu Domingos, Meire, Dona Meire da padaria, Maria, Dona Maria do Gercy, Mita, Dona Mita tão falada, tão ausente naquela foto onde a presença dos outros é um instante gravado no papel que passou anos amarelando dentro de um cofre e hoje circula as mãos das muitas saudades. Os olhos de quem os conhecera, parece que escutam as vozes, sorri esse contido que não se prolonga pelo resto da vida, pois junto há a lembrança de um fim, esse que cala e que torna os lábios trêmulos e longes a mesma canoa suspensa metida em ramas onde seus corpos foram vistos pela última vez. 
Assim que fiz os registros, fomos ao quintal. Soraya me levou a um pequeno barracão ao fundo onde havia livros com mais de um século, da farmácia do Gercy, e um caderno de poemas, da década de 50, com uma linda caligrafia que fomos descobrir ser de Suzete. 

No momento da escavação, parei para observar o entorno, a vegetação e as galinhas que levam cada uma nomes das primas de Soraya: Lêda, Bochecha, Parasita, que é a Ana Márcia, entre outras. Adriana teve que ser sacrificada porque estava comendo os próprios ovos. Um pintinho se perdeu do bando e piava seu desespero que era respondido pelo chamado da mãe, não sei qual das primas era. Era a vida na superfície e suas memórias naquele espaço carregado de outras lembranças. Suava, dia quente, um vento veio e parei pra senti-lo pensando na criação, noutras coisas tão divinas como o vento e me lembrei que para falar com Deus precisava ter voz de passarinho.

Quando terminei, fui à cozinha beber água e lá Suzete foleava seu caderno de poesias, pediu pra que eu me sentasse e recitou este poema de Cassimiro de Abreu:

Deus


Eu me lembro! Eu me lembro! - Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia,
E, erguendo o dorso altivo, sacudia,
A branca espuma para o céu sereno.


E eu disse a minha mãe nesse momento:
"Que dura orquestra! Que furor insano!
Que pode haver de maior do que o oceano
Ou que seja mais forte do que o vento?"

Minha mãe a sorrir, olhou pros céus
E me respondeu: - Um ser que nós não vemos,
É maior do que o mar que nós tememos,

Mais forte que o tufão, meu filho, é Deus.




Fiquei a imaginar este Deus maior que o tufão e o mar temido. E, não, pensei, ele é tão pequeno que cabe num canto de pássaro, de saudade, de lembrança, num grão.
Cada passo é um quintal diferente no guardado das lembranças e não há medida para a saudade que passeia atrás, como Deus nos vendo do distante. Ainda não consegui ter a voz de um passarinho.