terça-feira, 5 de maio de 2015

Os mil olhos do bambuzal

          A madeira rachada era só a madeira rachada, a lasca exposta ao fogo. E da chaminé a fumaça que ganhava os pomares revelando espadas luminosas do feixe filtrado do sol, fincando a terra, parindo e morrendo tudo no mundo.
          O relógio de prata no punho moreno deixado sobre a mesa, uma das mãos segura a faca enquanto a outra leva para dentro da cratera o esforço duro das máquinas que debulham o milho, destroçam a cana.
          Dois ruídos apenas saem do meio do crepitado, das lenhas ainda acesas. Entre um e outro, um vão.
          Um papel queimava o que ela havia escrito sem que o pai pudesse ver: 

          "Deus é a bondade?" (Ali já corroía um buraco rodeado de fogo para todo o corpo do papel). "...parece ser um couro estendido, repuxado, de um boi que morreu à facadas, onde cada rasgo é a brecha por onde se vê o do outro lado." 

          O papel ia, o fogo lia e apagava, lambendo em labaredas sem dar nota. Ardido na garganta igual à água que se pinga em chapa de ferro escaldado, o medo é na gente. Ele, a mãe assoviando no quintal. O medo é em tudo. 
          Voltou ao corredor e retirou o lenço que tapava o santo, antes que a mãe visse e resmungasse ao pai a sua estranheza, essa. O pai fingia não escutar, mas a tulha guarda do vento o miolo do feno. 

          "Essa é só uma brecha do couro". Pensou ela e voltou para o frio da sua cama, sua janela que dava para o terreiro. O mundo e seus pequenos. Começou a desenhar o barranco que se via abaixo do bambuzal e que era a margem mais alta do córrego. Antes, anotou no papel: "Barranco é o vão de um nas costas de outro, Deus e o diabo se encarando na lateral dos olhos, o muito de terra que some na lambida fina de um riacho. É por neste mundo existir barranco que existe igreja. Cristo, nosso senhor, pra sempre neles de mãos e pés, cruz é uma chapada aberta erguida do solavanco do chão". Olhou para a ferida em seu braço: "Também a ferida, o rasgo na pele que leva ao fundo, cratera, que não pode ficar aberta expondo a intimidade tão assediada, é barranco. Logo a ferida se torna pele seca, casca morta, tal qual a um vulcão inativo que mantém violada a restituição da lava, o sangue que corre por essas pontes, como onda, sempre buscando o coração. O corpo é demais rios, outras pessoas que nos habitam, chuvas que esbarram em cordilheiras para despencar em outro país. O corpo tem as suas cordilheiras, toda célula é cordilheira em si, de si, barranco."


          Largou o papel sobre o colo por baixo da mesa e se lembrou do dia que escutara o tio contar para a sua mãe um sonho, eles dois sentados à sombra que a casa fazia no terreiro, ele preparava o pito, ela catava o feijão: "Sonhei um homem que viu a primeira vez um barranco, parou diante dele, todos homens e mulheres atrás, e ali ficou e tudo que a gente vive hoje é pensamento desse homem buscando o desvio ou ponte se erguer, toda guerra, tudo é um instante de palha em fogo no pensamento desse, como quando meu pai jogava jogo de tabuleiro com meu avô. O pensamento da gente é ainda o homem olhando o lá na frente sem poder atravessar, imaginando. Fico pensando em quando esse homem for dar no outro lado, o que é da gente depois?"

          Olhou novamente a janela e o que ela via por cima desse barranco era um bambuzal: "esse parece que me olha mil vezes, só o terreiro é que não dá satisfação. As galinhas lá." Pensou.

          O pai passou pelo corredor, indo ao seu quarto, ela que desenhava o barranco dobrou o papel e o escondeu dentro da saia. Passado o pai novamente, retornando, ela por fim rabiscou o último espaço: "Desenho e escrita é barranco. Casco de navio é barranco que flutua".
          O pai no terreiro foi para ela o maior barranco onde o lá na frente ficou entre um vão esperando. Ele a chamou pela primeira vez depois de anos lhe espiando em silêncio. Em barranco bicho muda a couraça, o que rasteja flerta com o desvio, é o no-não-pode ordenado, soerguendo a encosta, delineando o precipício. O pai sentou-se ao seu lado enquanto ela esperava e olhou mais olhou para o lado do bambuzal e disse que nele existiam mil olhos.

  

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Fio um somar

Também, como nas tuas, 
nas minhas mãos os fios
e é só um somar 
envolto em si, emaranhado complexo.
os todos a ponta final
fazer falamos falo o nada
como frase ao revés
no entalhe derradeiro que sobra 

segue, cria a vontade figura da volta.
volume que quer sobrevir
a si mesmo
assim feitura, embondo, 

enlace

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Pele

Me falta cor
 e corpo

os fios, demais espalhados entre
[é preciso ver a lama seca
por uma lente mecânica]
ruivos quase nulos, inibe.

A fala, ranhura albina de uma
casca que se acomoda ao pé do que nasceu,
não sai de seu dentro, retorna ao contato
dos limites ovais e
ensurdece pra dentro da casca.

No momento da fala, a tempestade
que virá cair longe do campo dos olhos.

Falar me anula a visão.




domingo, 30 de março de 2014

Toda palavra depois se molha

Chuva ocupa o espaço. Uma cortina de gotas. 

O vento, tal como o que antecede as palavras, está no gesto, o olhar, no nervo que contrai buscando o sopro que logo sairá nos tons erguidos da fala, assim ele anuncia a chuva.

Chuva é o espaço dizendo espaço nas suas lacunas, quem não se protege se molha de espaço. São as vagas que molham, no ventre do entre, arranca palavras, faz correr a gente pra debaixo do toldo verde. Conversas molhadas nascem.

o pingo
go
teja 
sem trégua
num texto re
lido 
telha
de zin
co
teto
reto
te
ta
colo
nial
não soa o sino
       porém o toca
seus próprios sinos encontram o limão pequena esfera descendo seu suco no avesso da cas
ca

A chuva não se opõe à queda. Chuva é o que chove, pensamento chove, corpo chove pra dentro da terra. É de chuva os rios, as árvores, a vida é chuva que molha dentro. A música é chuva e chuva música do tempo no instrumento do espaço. Temporal é ronco de chuva, estrondo que cai em grossas gotas, ampliando o corpo de toda tormenta, fecham as janelas ou deixam entrar, cobre a semente que faz nascer um corpo imenso que nos espalha e nos leva para ser mundos, nossos silêncios desconhecidos de fronteiras, água corrente absoluta em travessias.

Não terá a chuva nos ensinado a escrever? A Chuva reinaugura os objetos e as coisas como faz a escrita. Reinaugura o templo de Ártemis e os manuscritos de Heráclito e também as sandálias de cobre daquele que sumiu. Ecoa no chiado intermitente a cera derretida das asas de um herói e nos cantos louvados junto às ramas de milhos que escondem a terra. Experimentamos num só tempo o corpo da mesma chuva.

Agora há pássaros se protegendo em galhos para depois - como há muito - nos lembrar que este é um lugar de todos, uma voz que nunca se cansa. 



sexta-feira, 28 de março de 2014

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água cau ságua causa águ acau sai nér ciágua 
cau sagu aca usa in ér ciá gua caus a inérci a

quinta-feira, 27 de março de 2014

Fantasma

Fantasma é fumaça desatenta
Que não se olha, nem se orienta
Na capela o sino surdo
O corpo mudo de espera
Que deseja que a noite arda
Que o sal da praia invada
O desejar secreto
das pequenas conchas
Ao perceber a tarde
Se orienta e se invade
De gotas do mar
Fantasma é corpo
É alma que não se sabe
Um dia de pele, oco
Buscando o bronzear da tarde.


Para Shima

Caminha

Caminha que teu dorso é só
E se consome, auguro do tempo
Caminha e deixa teus pés
Como faíscas do presente
Caminha e leva tua carga
Que te constrói as provas
Caminha a resistência
De uma gravidade
Mesmo que volte, caminha
Caminha a terra,
Ofício das noites
Caminha a larva,
Desejo de reduzido porte
Caminha,
Teu céu,
Ventura dos homens,
Abertura de invulgar culatra.